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* Costurando o Pinto...



Aqui, uma linda mensagem nesse texto. É grande,mas tenho certeza que vão gostar. Vamos aprender a costurar os pintos???Chica

COSTURANDO O PINTO
Quando criança no quintal de casa a gente brincava, corria, pulava, subia no pé de goiaba, no de abacate, no pé de mexerica, na laranjeira, comia mamão no pé, roubava limão do vizinho para comer com sal, brincava de balanço de tábua, pulava amarelinha, cabra cega, esconde-esconde...

Nos dias de chuva éramos obrigados a ficar dentro de casa, que tédio era aquilo, meu irmão ficava nos cantos brincando de carrinho, minha irmã mais nova dormia, e eu vestia meu pijama de flanela e ia para porta sentir o friozinho da chuva, observar como as gotas caiam nas folhas das flores, os patinhos que brincavam nas poças e quando caia chuva de pedra era uma festa, lembro que eu punha uma caneca de alumínio para colher a chuva de gelo no fim da escada da sala, tempinho bom sem preocupações!

Minha mãe sempre por perto sorria sorrateira de minhas bobagens, mas também ela vivia contando-me historias e para a imaginação fértil e inocente de criança não havia jeito.

Um dia ela estava na cozinha preparando o almoço e eu em volta saracoteando falando mais que a boca, como que ela tinha paciência para me contar coisas tão bonitas, lembro que fui até a porta que dava para o quintal (enorme porque no sitio o quintal não termina mais) e avistei uma das galinhas que havia descascado os pintinhos há poucos dias passeando bem próximo da escada de dois degraus, nisso eu comecei brincar de pular do alto da escada para o chão e quanto mais fazia isso mais queria fazer, e chamava minha mãe para ver, devia eu ter uns três anos aproximadamente e era um desafio enorme para eu fazer isso.

A galinha pensando que eu estava a brincar com ela aproximou-se com os pintinhos tão amarelinhos, coisa mais fofa de se pegar, e eu pulando a escada, e quando pulava a galinha corria e os pintinhos também e foi ficando divertido, eu gritava - sai pintinho!

E pulava, subia a escada e me jogava novamente meus pés calçados de havaianas acertavam o chão que levantava a poeira, no último salto o pintinho mais bonitinho e gordinho não conseguiu correr a tempo, meu pé direito caiu de cheio em cima dele partindo-o ao meio, tudo o que havia dentro dele ficou de fora e eu aprontei o maior berreiro, minha mãe veio correndo para acudir e viu o que aconteceu, eu gritava desesperada de dó do pintinho, lembro da sensação horrível que senti por ter feito aquilo não conseguia conter as lágrimas.




Mamãe me pôs no alto da escada, buscou linha e agulha sentou numa cadeira e me disse: não foi nada, espera aí que eu vou arrumar ele para você e vai ficar novinho de novo, e a cada alinhavo que dava costurando o pinto minhas lagrimas iam secando e ela falando comigo, distraindo-me e então me mandou buscar qualquer coisa lá no quarto e quando voltei, ela estava em volta das panelas.
Cadê o pintinho? – Perguntei.

Está aí com os outros – respondeu.

Onde? – Ali correndo, vê?

Não sei se vi, mas esqueci o episódio.

Hoje sei que o que minha mãe fez foi a mais pura psicologia infantil, de forma simples e direta ela alinhavou minha tristeza, o possível trauma e qualquer outra coisa que pudesse acompanhar o acontecido com linha branca e uma agulha bem fininha.

O amor pode ser dito ou expresso de várias formas e maneiras e uma delas pode ser... Costurando o pinto.

*Ivone Macieski é Licenciada em letras, poetisa, corretora de imóveis, membro da academia Douradense de Letras, membro fundador e presidente de Grupo Ser de Poesia, ministra Oficinas de Poesias nas escolas municipais, estaduais e particulares.