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* Criando, distribuindo cores...


Pessoas que criam coisas legais por prazer e as distribuem de graça pelo mundo


Dia desses, fui bater um papo em Belo Horizonte com um artista chamado Eduardo Recife, 28 anos.

Ele me disse que uma coisa que ele adora fazer é criar fontes.

Fontes são famílias de letras, alfabetos.

Eduardo desenha letra por letra, do A ao Z, e também os números e acentos, o que dá um trabalho desgraçado.

No começo, ele fazia isso por curtição, sem pensar que podia dar dinheiro.

Aí encontrou um site na internet em que conseguia distribuir de graça as fontes para quem quisesse usar em trabalhos da faculdade e obras de arte, ou até mesmo em peças publicitárias. Bastava entrar lá, baixar a fonte e pronto.

O site de fontes grátis foi um sucesso de audiência.

Aí um dia chegou uma conta.

Era uma multa de 2 mil reais por ter ultrapassado o limite de tráfego no site.

Eduardo, que só queria curtir, nem sabia que havia um limite e que ultrapassá-lo custava caro.

E resolveu usar o mesmo site para reclamar de seu azar. Aí veio a surpresa.

Um monte de gente que tinha usado suas fontes e gostava do trabalho dele começou a fazer doações.

Rapidinho, Eduardo recuperou a grana toda.

Hoje ele é um artista conhecido.

Seus trabalhos são publicados no mundo todo, até no New York Times. Ele continua dando fontes de graça.

Perguntei se doar o trabalho abriu portas.

Ele diz que é difícil saber, mas que acha, sim, que as pessoas que baixaram suas fontes e gostaram podem ter ajudado a divulgar seu nome.

Eduardo foi um entre mais de 100 pessoas que eu e uma equipe de três pessoas entrevistamos este mês Brasil afora.

Estamos viajando de carro em busca de gente legal e talentosa como ele.

A idéia é conversar com essas pessoas para tentar entender o que os jovens de hoje estão pensando, querendo e fazendo e, depois que voltarmos para São Paulo, criar uma revista nova que faça sentido nestes novos tempos.

Está sendo uma viagem espetacular, mas a coisa mais legal é perceber que hoje tem muita gente fazendo coisas bacanas por prazer e oferecendo aos outros de graça.

São dezenas de exemplos:
-os caras que reformaram uma pista de skate e cobram quase nada para usá-la,
-a rapaziada que faz arte ou música na rua, a turma que organiza festivais de rock com a filosofia “se não der prejuízo, tá no lucro”,
-o pessoal que cria coisas úteis na internet, -
-os budistas que tentam salvar o mundo com ideias, -
-o povo que edita uma revista de graça.

Todo mundo curtindo o que faz sem esperar nada em troca.

Mas teve uma coisa que me preocupou.

O Eduardo contou que a maioria das doações que recebeu veio do exterior.

Quase nenhum brasileiro ajudou. É o que ouço sempre: brasileiro não tem hábito de doar.

Talvez tenha a ver com nossa mania de achar que é o governo que tem que cuidar do bem público e que nós cuidamos de nós mesmos.

Acho que está na hora de mudarmos isso. E identificar as pessoas legais fazendo coisas legais à nossa volta e ajudar no que der.

Denis Russo Burgierman(Revista Vida Simples, fevereiro2009)

Um comentário:

  1. Gostei do Texto e gostei do puxão de orelha...é isso mesmo! Beijos Chica, você sabe que adoro todos teus Blogs!

    ResponderExcluir

Que bom ver vocês por aqui!beijos,chica